sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Por que tantas pessoas religiosas tendem a se encantar com os líderes autoritários? Olhares bíblicos e psicanalíticos

Há muitos exemplos na história que mostram que   pessoas religiosas se tornaram de alguma                     forma vulneráveis a líderes autoritários. Os                exemplos são diversos, seja no próprio                        ambiente religioso ou mesmo no campo                       político. Provavelmente o exemplo mais                       gritante seja o do nazismo, para tristeza                        extremamente decepcionante para nós cristãos,            boa parte da igreja alemã da época e até                        mesmo de outros países acreditaram que acatar            a submissão ao Führer era o mesmo que servir a Deus.


No campo religioso, podemos lembrar do caso fatídico de Jim Jones que com todo seu carisma seduziu centenas de pessoas a seguirem-no literalmente a ponto de deixarem sua casa, sua família, seu trabalho, sua cidade e até mesmo seu país, pois tomaram a decisão de acompanhá-lo até a Guiana, e o seguiram incondicionalmente até a morte, pois acabaram se suicidando. A história revelou que este líder era absolutamente autoritário nos bastidores, todavia aquelas pessoas não conseguiram perceber que não fazia sentido acreditar em alguém que fala tanto do amor de Deus mas é autoritário.


Nas Escrituras, no livro dos Juízes, encontramos a parábola do espinheiro que acaba sendo ungido rei sobre todas as demais árvores e ele diz: “Se querem mesmo ungir-me rei, venham abrigar-se à minha sombra. Se não, que saia fogo de mim”. Certamente este texto é um do mais antigos a denunciar a loucura do autoritarismo e a revelar que apesar de conhecerem a dores que um espinheiro pode causar, ainda assim decidem ungi-lo rei. Os exemplos e até os textos bíblicos demonstram esse poder atrativo dos líderes autoritários sobre os religiosos, mas não explica o porquê. Vamos pensar nisso…


Olhando para o NT encontramos uma grande resistência de parte dos judeus, especialmente dos religiosos, de aceitarem que Jesus era o Messias, o Cristo enviado de Deus para trazer salvação, especialmente porque ele era uma pessoa simples e sem poder políticos, sem exército e sem influência. Na expectativa deles o Messias seria alguém tremendamente poderoso que derrubaria Roma e devolveria aos israelitas o poder de governar a si próprio, sem estar na dependência de governos estrangeiros, só este conceito de Messias já demonstra os anseios que flertam com o poder autoritário. Paulo apóstolo diz que Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para envergonhar as fortes (I Coríntios 1.21). Sendo Cristo a máxima revelação de Deus e vindo a este mundo em fraqueza e humildade, isso já desconstrói qualquer relação que se tende construir entre Deus e os poderosos autoritários. Deus é todo poderoso, mas se revela em humildade e vulnerabilidade. Sua autoridade jamais se manifestará em autoritarismo.


Dessa forma, isso posto, se muitas pessoas religiosas se encantam com líderes autoritários é porque de fato não compreenderam ainda essência do cristianismo e confundem ideologia com fé, confundem poder divino com poder humano e se encantam mais pela força do que pelo amor, se encantam com gente orgulhosa e não humilde. Na história praticamente todo líder autoritário tenta demostrar que é uma pessoa religiosa, porém os cristãos deveriam prestar atenção aos alertas da própria Escritura, entendendo que se conhece uma árvore por seus frutos e não pelos discursos que se propagam nos cortes para as redes sociais. O teólogo Paul Tillich escreve sobre a fé autêntica x fé heterônoma. Segundo ele, a fé heterônoma submete sua consciência a uma autoridade externa, absolutiza o relativo, transforma meios em fins e eleva a uma instância última àquilo que é finito, ou seja, a fé heterônoma pode desembocar numa idolatria. Já a fé autêntica por estar orientada as coisas mais importantes, tem condições de perceber que o autoritarismo é uma sacralização do poder, e compreende que as coisas mais altas, últimas na linguagem de Tillich, deveriam estar no topo da existência e isso nunca deveria pertencer a um líder político ou mesmo religioso, ou qualquer ideologia.


Olhando pela perspectiva de psicanálise, Freud entende que o encanto de pessoas religiosas por líderes autoritários não é um “desvio”, mas uma questão estrutural, fruto de uma ilusão, a ilusão que tenta curar uma carência profunda e assim tal pessoa elege um líder para ser um tipo de pai ideal, alguém que vai trazer segurança psíquica. Para Freud a relação com o líder não é racional, mas libidinal e assim a submissão não se dá apenas por medo, mas por prazer por proporcionar a compreensão de ser acolhido, sentir-se pertencente e sentir-se puro por participar daquela compreensão de mundo.


Freud que sempre tem um olhar de suspeita para a religião acaba por compreendê-la como um espaço onde já existe a submissão, onde organiza o mundo em termos de bem/mal, sendo que o “eu” está sempre do lado do bem e o outro do lado do mal, isso propicia o encanto pela pessoa autoritária para tentar sanar uma carência estrutural, ligada ao desamparo humano, por isso, ilusão, pois ninguém neste mundo, mesmo que bem intencionado, poderia suprir as necessidades mais profundas da alma humana.


Sintetizando: no olhar bíblico a atração pelo líder autoritário é fruto de desobediência e até falta de discernimento que pode culminar em idolatria e para a psicanálise é fruto de uma carência ontológica, que está na raiz do ser, na falsa expectativa de ver todas as dores pessoais e do mundo serem sanadas. A cura para este mal passa pela conscientização em ambas as perspectivas e também por uma análise histórica que demonstra que inúmeras pessoas religiosas não se permitiram encantar pelo poder autoritário, ou seja, elas conseguiram manter sua fé saudável, mantiveram a lucidez e a sanidade. Portanto, jamais entregue seu coração de forma absoluta para quem não pode sustentar a sua existência.