domingo, 19 de outubro de 2025

A oração e o rivotril

             

Por muito tempo foi proclamado em algumas igrejas que os problemas ligados a saúde mental eram falta de fé, falta de oração, ou mesmo consequência de algum pecado. Se dizia em muitos púlpitos que o cristão verdadeiro não sofria de depressão. Além de um ataque constante aos profissionais da saúde mental. Conheço histórias de psicólogos que não suportaram tamanha perseguição covarde dos púlpitos e foram congregar em outra igreja. Imagine o tipo de ataque que sofreram as pessoas que eram medicadas com ansiolíticos e calmantes como o rivotril naquelas épocas, sofriam dobrado, por estarem mentalmente enfermas e por serem perseguidas por seus líderes espirituais de quem deveriam receber apoio e cuidado.

Hoje – graças a Deus – essas falas equivocadas, fruto do puro suco da ignorância, tem diminuído cada vez mais e se espera que elas cessem por completo. Uma explicação plausível para essa postura inadequada vem de uma compreensão ruim das palavras Jesus e outros textos das Escrituras:

“Por isso vos digo: Não fiqueis ansiosos quanto à vossa vida, com o que comereis, ou com o que bebereis; nem, quanto ao vosso corpo, com o que vestireis. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que o vestuário [...]. Por isso vos digo: Não fiqueis ansiosos quanto à vossa vida, com o que comereis, ou com o que bebereis; nem, quanto ao vosso corpo, com o que vestireis. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que o vestuário?” (Mateus 6.25)

O entendimento que provavelmente se extraia deste texto é que sofrer de ansiedade era pecado e por isso devia ser rejeitado. Mas basicamente Jesus está criticando um certo afã das pessoas de compreenderem  que a vida está totalmente em suas próprias mãos. A ansiedade que Jesus critica é consequência de uma visão equivocada da vida, onde se carrega o peso gigantesco nas costas de que as minhas conquistas são fruto exclusivo de mérito, do meu esforço, do meu trabalho, esquecendo-se que a vida é dádiva de Deus e que até nossas conquistas acontecem debaixo da permissão divina. O ensinamento de Jesus é que essa busca frenética por manter a vida – sem depender de Deus – gera ansiedade, e por sua vez, falta de paz e traz prejuízos na jornada da vida.

                Portanto, quando uma pessoa sofre de ansiedade ou pânico ou depressão, ela pode e deve acessar os serviços médicos da psiquiatria, das terapias dos psicólogos, dos psicanalistas etc, e se o remédio receitado, devidamente, for o rivotril ou outro, tal pessoa tem total liberdade para usufruir deste tratamento, afinal o cristão deve compreender que as conquistas da medicina são também fruto da graça de Deus. Isso é valido para as ansiedade que são fruto de patologia.

Agora para tratar da ansiedade que Jesus critica, o cristão pode buscar crescer na oração, conforme ensina o apóstolo Paulo: “Não andeis ansiosos por coisa alguma; pelo contrário, sejam os vossos pedidos plenamente conhecidos diante de Deus por meio de oração e súplica com ações de graças; ' e a paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, guardará o vosso coração e os vossos pensamentos em Cristo Jesus” (Filipenses 4.6 e 7). Aliás, a oração é importante para todos momentos, com rivotril ou sem rivotril, pois através dela aprendemos que existe um Deus que se importa e que está atento ao nosso clamor e que se propõe a nos acompanhar em nossas dores, mesmo quando precisamos dos remédios e assim vamos cultivando em nosso coração a atitude de descansar em situações que transcendem ao nosso controle e também naquelas que não fugiram da nossa governabilidade. 

Se você está sofrendo de uma forma que não está conseguindo sustentar, procure urgentemente por ajuda, e siga também em oração a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor rico em misericórdia, que está sempre pronto a derramar a sua benevolência. Ore e peça que seus amigos orem por você.  É conteúdo para outro texto a situação de pessoas que abusam do rivotril e outras medicações, sem o devido acompanhamento médico. Com carinho, Laurencie.

 

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Orações de lamento, orações humanizadoras, orações de refrigério


"Clama ao Senhor, ó povo de Sião; corram as tuas lágrimas como um ribeiro, de dia e de noite; não te dês repouso, nem descansem os teus olhos. Levanta-te, clama de noite, no princípio das vigias; derrama o coração como águas diante do Senhor! Levanta tuas mãos a ele pela vida de teus filhinhos, que desfalecem [...] nas esquinas das ruas?" (Lamentações 2.18-19)

A oração de lamento é parte demasiadamente importante da espiritualidade cristã no enfrentamento da realidade. Primeiro ela nos mostra com clareza a dureza da existência, sem idealizações, sem romantismos, sem subterfúgios, sem alienações. A Palavra de Deus nos ensina: olhe bem para a vida e não aceite nada que tente falsificar o real.

Em segundo lugar a oração de lamento desconstrói a ideia de que a pessoa de fé está livre das mazelas e vicissitudes, derruba a falso entendimento de que existe um lugar que se está totalmente protegido e livre das dores do mundo. Assim a fé fincada nesse chão duro da realidade, não se torna fuga ou falseamento do sofrimento, mas sim, enfrentamento, aceitação, perseverança e paciência e haja paciência.

Por último tal oração nos ensina que Deus é Deus de todas as horas: dos tempos de alegria e também dos tempos de tristeza. Deus é Deus no dia do nascimento e no dia da morte, no dia do riso e no dia das lágrimas, na hora da festa e na hora do luto. Se não compreendermos isso, se não acolhermos essa verdade dentro do nosso coração a nossa fé poderá se tornar num monte de decepção.

Quando uma pessoa motivada pela angústia e sofrimento - muitos deles incompreensíveis - achega-se Deus com a alma escancarada, com coração quebrantado e contrito, significa que sua dor é real e que seu coração está ferido de fato, todavia é aos pés do Senhor que ela está buscando alívio e consolação. Ao buscar o Deus da verdade tal pessoa se recusa a ser tratada com remédios que não curam, não aceita conselhos apressados e soluções triviais, dessa forma ela é humanizada pois olhou para a dor nos olhos e a acolheu e se permitiu se sensibilizar, e o coração sangrar e as lágrimas caírem, diante de Deus, diante da vida.

Quando oramos orações de lamento quando está doendo, quando estamos com medo e angústia e está apertando o peito nos identificamos com o Cristo que na cruz clamou: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" O desamparo é o sentimento quase que normal na hora do sofrimento mais agudo, mas Deus continua sendo o Meu Deus. Negar o sofrimento, buscar soluções fáceis, fingir que o caos não está presente são posturas que não são emocional, psicológica e espiritualmente saudáveis e atrapalham a caminhada e o crescimento de qualquer um, de qualquer uma.

Deus nunca prometeu dias fáceis pra ninguém, mas Ele prometeu estar presente em todos os momentos. Enxergar Deus no meio do caos é um gigantesco desafio. Tal busca passa pelas orações de lamento ao Deus de misericórdia que se revelou em graça através de Jesus, homem experimentado nos sofrimentos, que nunca rejeitará um coração quebrantado e contrito. Kyrie Eleison! Com carinho, Laurencie.