Embora para muitas pessoas o final do ano seja tempo de festas,
viagens, e estar com a família e amigos, para muitos outros é tempo
em que bate aquela tristeza, sentimentos de fracasso e solidão. Como
explicar isso?
Podemos
dizer que existem sofrimentos que as pessoas carregam em que elas não
conseguem nomear, faltam palavras adequadas para narrar esses
sentimentos. Talvez uma expressão que possa explicar essa sensação
é mal-estar que é uma condição estrutural da vida em sociedade.
O
psicanalista Dunker critica fortemente a lógica comparativa da
contemporaneidade: por meios das redes sociais pensamos poder
verificar quem avançou, quem prosperou, quem constituiu família,
enfim, quem venceu. Daí o sujeito, diante deste universo de
informações do sucesso dos outros, pode se compreender como fora
da média, atrasado, em dívida com o tempo. Além disso, há um
certo imperativo de se festejar nestas épocas, como se fosse
possível obrigar as pessoas a estarem felizes, estarem acompanhadas,
estarem agradecidas e estarem bem. Quem não se encaixa nesta lógica
se sente inadequado, culpado e até como se fosse um estranho no
ninho.
Usando
a linguagem de Lacan podemos dizer que o sujeito se constitui no
olhar do Outro e este Outro contemporâneo cria a sua métrica
através das redes sociais, construindo até ranking de felicidade,
todavia como a experiência comprova, tal medição não alcança a
todos.
Freud
dizia que aquilo que não é simbolizado retorna como sintoma, assim
para enfrentar essa tristeza é preciso poder dizer sem culpa: “estou
triste e isso tem história”. É preciso admitir que tristeza não
é falha moral, nem sinônimo de fracasso e daí é possível
abandonar a culpa.
Bebendo
um pouco dos livros de sabedoria da Bíblia: o autor bíblico afirma
que a tristeza é melhor que o riso pois aperfeiçoa o coração e
ainda diz que é mais proveitoso estar numa casa que há luto do que
na que tem festa, pois é preciso refletir na finitude da vida e
ninguém faz isso numa festa e citando literalmente o texto bíblico
se afirma: “Não viva saudoso dos bons e velhos tempos, isso não é
sábio”. Ou seja, a Bíblia revela que sentir tristeza não é o
fim do mundo, não é a decretação de uma vida fadada ao fracasso,
mas é parte importante da nossa construção. Se a tristeza está
presente, então é preciso parar para ouvi-la, certamente há
histórias a serem contadas. Ademais, não é saudável querer
habitar no passado, como se lá tivéssemos vivido o céu na terra.
Isso também é ilusão, afinal, a vida é sempre mistura de coisas
boas e ruins em todo o tempo. Usando as palavras do Mestre Jesus é
preciso viver hoje porque o amanhã trará a suas próprias
preocupações.
Não
creio naquelas frases mágicas tipo: “é preciso suportar o
processo para vivenciar o propósito”, frase de muito mal gosto por
sinal, como se tudo que acontecesse na vida tivesse algum sentido
maior ou uma lição a dar. Isso é falso. As crianças de Gaza que
perderam membros do seu corpo ou seus entes queridos por conta de
governantes sanguinários só demonstram o absurdo da história
humana, e não há nenhum propósito em tal sofrimento, exceto o de
revelar nosso fracasso em sermos humanos. Assim sendo, é bom deixar
de lado qualquer tipo de discurso triunfalista da existência, isso
além de não estar respaldado na realidade, não ajuda ninguém.
Reconhecer
e nomear as tristezas é um bom passo para a autoaceitação, afinal
cada um tem a sua história, e neste reconhecimento sincero e
humilde, talvez possa surgir em nossa mente aquela velha canção que
dizia: “cada ser em si carrega o dom capaz de ser feliz”, sem
obrigatoriedades, sem comparações, sem imperativos de felicidade,
sem ranking de sucesso, só a alegria de viver a minha própria
história, junto dos meus, com minhas vitórias e fracassos. Sendo
assim, desejo que seu 2026 possa ser vivido em plenitude. Uma oração
para nos orientar diante do futuro que se apresenta: Senhor,
ensina-nos a contar os nossos dias de modo que alcancemos a sabedoria
(Salmo 90.12). Encontrar a sabedoria é (re)descobrir o sabor de
viver. Deus nos ajude! Amém! Em caso de uma tristeza insistente:
procure ajuda!
Nenhum comentário:
Postar um comentário