sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Por que tantas pessoas religiosas tendem a se encantar com os líderes autoritários? Olhares bíblicos e psicanalíticos

Há muitos exemplos na história que mostram que   pessoas religiosas se tornaram de alguma                     forma vulneráveis a líderes autoritários. Os                exemplos são diversos, seja no próprio                        ambiente religioso ou mesmo no campo                       político. Provavelmente o exemplo mais                       gritante seja o do nazismo, para tristeza                        extremamente decepcionante para nós cristãos,            boa parte da igreja alemã da época e até                        mesmo de outros países acreditaram que acatar            a submissão ao Führer era o mesmo que servir a Deus.


No campo religioso, podemos lembrar do caso fatídico de Jim Jones que com todo seu carisma seduziu centenas de pessoas a seguirem-no literalmente a ponto de deixarem sua casa, sua família, seu trabalho, sua cidade e até mesmo seu país, pois tomaram a decisão de acompanhá-lo até a Guiana, e o seguiram incondicionalmente até a morte, pois acabaram se suicidando. A história revelou que este líder era absolutamente autoritário nos bastidores, todavia aquelas pessoas não conseguiram perceber que não fazia sentido acreditar em alguém que fala tanto do amor de Deus mas é autoritário.


Nas Escrituras, no livro dos Juízes, encontramos a parábola do espinheiro que acaba sendo ungido rei sobre todas as demais árvores e ele diz: “Se querem mesmo ungir-me rei, venham abrigar-se à minha sombra. Se não, que saia fogo de mim”. Certamente este texto é um do mais antigos a denunciar a loucura do autoritarismo e a revelar que apesar de conhecerem a dores que um espinheiro pode causar, ainda assim decidem ungi-lo rei. Os exemplos e até os textos bíblicos demonstram esse poder atrativo dos líderes autoritários sobre os religiosos, mas não explica o porquê. Vamos pensar nisso…


Olhando para o NT encontramos uma grande resistência de parte dos judeus, especialmente dos religiosos, de aceitarem que Jesus era o Messias, o Cristo enviado de Deus para trazer salvação, especialmente porque ele era uma pessoa simples e sem poder políticos, sem exército e sem influência. Na expectativa deles o Messias seria alguém tremendamente poderoso que derrubaria Roma e devolveria aos israelitas o poder de governar a si próprio, sem estar na dependência de governos estrangeiros, só este conceito de Messias já demonstra os anseios que flertam com o poder autoritário. Paulo apóstolo diz que Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para envergonhar as fortes (I Coríntios 1.21). Sendo Cristo a máxima revelação de Deus e vindo a este mundo em fraqueza e humildade, isso já desconstrói qualquer relação que se tende construir entre Deus e os poderosos autoritários. Deus é todo poderoso, mas se revela em humildade e vulnerabilidade. Sua autoridade jamais se manifestará em autoritarismo.


Dessa forma, isso posto, se muitas pessoas religiosas se encantam com líderes autoritários é porque de fato não compreenderam ainda essência do cristianismo e confundem ideologia com fé, confundem poder divino com poder humano e se encantam mais pela força do que pelo amor, se encantam com gente orgulhosa e não humilde. Na história praticamente todo líder autoritário tenta demostrar que é uma pessoa religiosa, porém os cristãos deveriam prestar atenção aos alertas da própria Escritura, entendendo que se conhece uma árvore por seus frutos e não pelos discursos que se propagam nos cortes para as redes sociais. O teólogo Paul Tillich escreve sobre a fé autêntica x fé heterônoma. Segundo ele, a fé heterônoma submete sua consciência a uma autoridade externa, absolutiza o relativo, transforma meios em fins e eleva a uma instância última àquilo que é finito, ou seja, a fé heterônoma pode desembocar numa idolatria. Já a fé autêntica por estar orientada as coisas mais importantes, tem condições de perceber que o autoritarismo é uma sacralização do poder, e compreende que as coisas mais altas, últimas na linguagem de Tillich, deveriam estar no topo da existência e isso nunca deveria pertencer a um líder político ou mesmo religioso, ou qualquer ideologia.


Olhando pela perspectiva de psicanálise, Freud entende que o encanto de pessoas religiosas por líderes autoritários não é um “desvio”, mas uma questão estrutural, fruto de uma ilusão, a ilusão que tenta curar uma carência profunda e assim tal pessoa elege um líder para ser um tipo de pai ideal, alguém que vai trazer segurança psíquica. Para Freud a relação com o líder não é racional, mas libidinal e assim a submissão não se dá apenas por medo, mas por prazer por proporcionar a compreensão de ser acolhido, sentir-se pertencente e sentir-se puro por participar daquela compreensão de mundo.


Freud que sempre tem um olhar de suspeita para a religião acaba por compreendê-la como um espaço onde já existe a submissão, onde organiza o mundo em termos de bem/mal, sendo que o “eu” está sempre do lado do bem e o outro do lado do mal, isso propicia o encanto pela pessoa autoritária para tentar sanar uma carência estrutural, ligada ao desamparo humano, por isso, ilusão, pois ninguém neste mundo, mesmo que bem intencionado, poderia suprir as necessidades mais profundas da alma humana.


Sintetizando: no olhar bíblico a atração pelo líder autoritário é fruto de desobediência e até falta de discernimento que pode culminar em idolatria e para a psicanálise é fruto de uma carência ontológica, que está na raiz do ser, na falsa expectativa de ver todas as dores pessoais e do mundo serem sanadas. A cura para este mal passa pela conscientização em ambas as perspectivas e também por uma análise histórica que demonstra que inúmeras pessoas religiosas não se permitiram encantar pelo poder autoritário, ou seja, elas conseguiram manter sua fé saudável, mantiveram a lucidez e a sanidade. Portanto, jamais entregue seu coração de forma absoluta para quem não pode sustentar a sua existência.


                                                                                                         


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Tristezas de fim de ano – o que a sabedoria bíblica e a psicanálise têm a dizer sobre isso?

Embora para muitas pessoas o final do ano seja tempo de festas, viagens, e estar com a família e amigos, para muitos outros é tempo em que bate aquela tristeza, sentimentos de fracasso e solidão. Como explicar isso?

Podemos dizer que existem sofrimentos que as pessoas carregam em que elas não conseguem nomear, faltam palavras adequadas para narrar esses sentimentos. Talvez uma expressão que possa explicar essa sensação é mal-estar que é uma condição estrutural da vida em sociedade.

O psicanalista Dunker critica fortemente a lógica comparativa da contemporaneidade: por meios das redes sociais pensamos poder verificar quem avançou, quem prosperou, quem constituiu família, enfim, quem venceu. Daí o sujeito, diante deste universo de informações do sucesso dos outros, pode se compreender como fora da média, atrasado, em dívida com o tempo. Além disso, há um certo imperativo de se festejar nestas épocas, como se fosse possível obrigar as pessoas a estarem felizes, estarem acompanhadas, estarem agradecidas e estarem bem. Quem não se encaixa nesta lógica se sente inadequado, culpado e até como se fosse um estranho no ninho.

Usando a linguagem de Lacan podemos dizer que o sujeito se constitui no olhar do Outro e este Outro contemporâneo cria a sua métrica através das redes sociais, construindo até ranking de felicidade, todavia como a experiência comprova, tal medição não alcança a todos.

Freud dizia que aquilo que não é simbolizado retorna como sintoma, assim para enfrentar essa tristeza é preciso poder dizer sem culpa: “estou triste e isso tem história”. É preciso admitir que tristeza não é falha moral, nem sinônimo de fracasso e daí é possível abandonar a culpa.

Bebendo um pouco dos livros de sabedoria da Bíblia: o autor bíblico afirma que a tristeza é melhor que o riso pois aperfeiçoa o coração e ainda diz que é mais proveitoso estar numa casa que há luto do que na que tem festa, pois é preciso refletir na finitude da vida e ninguém faz isso numa festa e citando literalmente o texto bíblico se afirma: “Não viva saudoso dos bons e velhos tempos, isso não é sábio”. Ou seja, a Bíblia revela que sentir tristeza não é o fim do mundo, não é a decretação de uma vida fadada ao fracasso, mas é parte importante da nossa construção. Se a tristeza está presente, então é preciso parar para ouvi-la, certamente há histórias a serem contadas. Ademais, não é saudável querer habitar no passado, como se lá tivéssemos vivido o céu na terra. Isso também é ilusão, afinal, a vida é sempre mistura de coisas boas e ruins em todo o tempo. Usando as palavras do Mestre Jesus é preciso viver hoje porque o amanhã trará a suas próprias preocupações.

Não creio naquelas frases mágicas tipo: “é preciso suportar o processo para vivenciar o propósito”, frase de muito mal gosto por sinal, como se tudo que acontecesse na vida tivesse algum sentido maior ou uma lição a dar. Isso é falso. As crianças de Gaza que perderam membros do seu corpo ou seus entes queridos por conta de governantes sanguinários só demonstram o absurdo da história humana, e não há nenhum propósito em tal sofrimento, exceto o de revelar nosso fracasso em sermos humanos. Assim sendo, é bom deixar de lado qualquer tipo de discurso triunfalista da existência, isso além de não estar respaldado na realidade, não ajuda ninguém.

Reconhecer e nomear as tristezas é um bom passo para a autoaceitação, afinal cada um tem a sua história, e neste reconhecimento sincero e humilde, talvez possa surgir em nossa mente aquela velha canção que dizia: “cada ser em si carrega o dom capaz de ser feliz”, sem obrigatoriedades, sem comparações, sem imperativos de felicidade, sem ranking de sucesso, só a alegria de viver a minha própria história, junto dos meus, com minhas vitórias e fracassos. Sendo assim, desejo que seu 2026 possa ser vivido em plenitude. Uma oração para nos orientar diante do futuro que se apresenta: Senhor, ensina-nos a contar os nossos dias de modo que alcancemos a sabedoria (Salmo 90.12). Encontrar a sabedoria é (re)descobrir o sabor de viver. Deus nos ajude! Amém! Em caso de uma tristeza insistente: procure ajuda!

domingo, 30 de novembro de 2025

Verdades da Bíblia e Ensinamentos de Freud: distanciamentos e aproximações - O tal do recalque


 

Recalque é um conceito importante dentro da psicanálise freudiana e é algo que está instalado lá no inconsciente da pessoa mas a afeta profundamente. Podemos definir recalque como: um mecanismo de defesa pelo qual o ego mantém fora da consciência conteúdos que provocariam angústia, mas que continuam ativos no inconsciente e influenciando o comportamento. Na teoria de Freud o que poderia tirar o equilíbrio do ego, ou a imagem que a pessoa tem de si mesma, é retirado da consciência. Esse desequilíbrio pode ser causado por um desejo proibido, uma fantasia, uma lembrança e até uma emoção intolerável, por isso acaba sendo recalcado, como se fosse lacrado em algum lugar do inconsciente na tentativa de deixar essa “coisa” bem guardada e esquecida. Ele não desaparece, apenas sai da consciência. Mas a questão que para Freud tudo que é recalcado retorna em forma de sintomas, sonhos, ideias obsessivas, atos falhos e comportamentos repetitivos que pode se dizer que geram algum tipo de sofrimento psíquico.


Os psicólogos cristãos concordam e aceitam o conceito de inconsciente, todavia seguindo a lógica de teologia cristã até mesmo o inconsciente é tocado pelo pecado humano que afeta o seu ser em sua completude. Pensando desse ponto de vista podemos dizer que há elementos presentes na profundidade do ser humano, no seu inconsciente, que afeta sua vida, macula sua relação com Deus, afeta sua autocompreensão e até mesmo prejudica a relação com as pessoas. O autor da carta ao Hebreus escreveu assim: Cuidem uns dos outros para que nenhum de vocês deixe de experimentar a graça de Deus. Fiquem atentos para que não brote nenhuma raiz venenosa de amargura que cause perturbação, contaminando muitos.  Pode-se dizer segundo este texto algo pode estar oculto no ser humano e pode crescer silenciosamente trazendo diversos prejuízos, o que é chamado de raiz venenosa de amargura, quando isso emerge pode trazer grandes prejuízos a pessoa. No pensamento bíblico essa raiz pode atingir até mesmo outras pessoas.


A cura para a raiz de amargura é o cuidado mútuo e abertura para a graça de Deus que pode lançar luz ao que está oculto, gerando arrependimento e mudança de atitude e postura diante da vida. Raiz venenosa de amargura pode ser algo ligado a moral, pode ser sentimentos maldosos em relação aos outros (rancor, ódio, inveja) enfim é um problema de ordem espiritual. Tal pessoa precisa de acompanhamento espiritual.


Esta raiz de alguma forma se aproxima do recalque freudiano, por estar oculto, por afetar a vida da pessoa, por trazer desequilíbrio, mas as semelhanças param por aí. Freud não trabalha com o conceito de pecado, então diferente da Bíblia não dá para moralizar a questão, pois o que foi recalcado não é necessariamente algo feio ou imoral, mas é algo incompatível com o ego, especialmente com exigências culturais, sociais ou internas da própria pessoa. O tratamento para isso é através da terapia, buscando descobrir o que está recalcado para lançar luz e trazer explicações para certos comportamentos e até sentimentos que a pessoa carrega.


Tanto o recalque como a raiz de amargura pode gerar ansiedade, angústia, pode provocar medo e vergonha. Ou seja, se você está sofrendo por algo que não entende se é uma pessoa que enxerga o mundo pelo prisma da fé cristã, então deve buscar ajuda espiritual, pedir conselhos a alguém maduro e pedir que alguém o acompanhe em oração. E também pode contar com o acompanhamento de um terapeuta que buscará encontrar caminhos dentro da psicanálise ou psicologia para ajudar a pessoa. O que não podemos é aceitar o sofrimento como normal, ou como meramente consequência de algum erro do passado, ou fraqueza na fé, ou algum tipo de sina. É preciso buscar apoio para encontrar nosso equilíbrio e podermos viver bem, de forma leve.

domingo, 19 de outubro de 2025

A oração e o rivotril

             

Por muito tempo foi proclamado em algumas igrejas que os problemas ligados a saúde mental eram falta de fé, falta de oração, ou mesmo consequência de algum pecado. Se dizia em muitos púlpitos que o cristão verdadeiro não sofria de depressão. Além de um ataque constante aos profissionais da saúde mental. Conheço histórias de psicólogos que não suportaram tamanha perseguição covarde dos púlpitos e foram congregar em outra igreja. Imagine o tipo de ataque que sofreram as pessoas que eram medicadas com ansiolíticos e calmantes como o rivotril naquelas épocas, sofriam dobrado, por estarem mentalmente enfermas e por serem perseguidas por seus líderes espirituais de quem deveriam receber apoio e cuidado.

Hoje – graças a Deus – essas falas equivocadas, fruto do puro suco da ignorância, tem diminuído cada vez mais e se espera que elas cessem por completo. Uma explicação plausível para essa postura inadequada vem de uma compreensão ruim das palavras Jesus e outros textos das Escrituras:

“Por isso vos digo: Não fiqueis ansiosos quanto à vossa vida, com o que comereis, ou com o que bebereis; nem, quanto ao vosso corpo, com o que vestireis. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que o vestuário [...]. Por isso vos digo: Não fiqueis ansiosos quanto à vossa vida, com o que comereis, ou com o que bebereis; nem, quanto ao vosso corpo, com o que vestireis. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que o vestuário?” (Mateus 6.25)

O entendimento que provavelmente se extraia deste texto é que sofrer de ansiedade era pecado e por isso devia ser rejeitado. Mas basicamente Jesus está criticando um certo afã das pessoas de compreenderem  que a vida está totalmente em suas próprias mãos. A ansiedade que Jesus critica é consequência de uma visão equivocada da vida, onde se carrega o peso gigantesco nas costas de que as minhas conquistas são fruto exclusivo de mérito, do meu esforço, do meu trabalho, esquecendo-se que a vida é dádiva de Deus e que até nossas conquistas acontecem debaixo da permissão divina. O ensinamento de Jesus é que essa busca frenética por manter a vida – sem depender de Deus – gera ansiedade, e por sua vez, falta de paz e traz prejuízos na jornada da vida.

                Portanto, quando uma pessoa sofre de ansiedade ou pânico ou depressão, ela pode e deve acessar os serviços médicos da psiquiatria, das terapias dos psicólogos, dos psicanalistas etc, e se o remédio receitado, devidamente, for o rivotril ou outro, tal pessoa tem total liberdade para usufruir deste tratamento, afinal o cristão deve compreender que as conquistas da medicina são também fruto da graça de Deus. Isso é valido para as ansiedade que são fruto de patologia.

Agora para tratar da ansiedade que Jesus critica, o cristão pode buscar crescer na oração, conforme ensina o apóstolo Paulo: “Não andeis ansiosos por coisa alguma; pelo contrário, sejam os vossos pedidos plenamente conhecidos diante de Deus por meio de oração e súplica com ações de graças; ' e a paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, guardará o vosso coração e os vossos pensamentos em Cristo Jesus” (Filipenses 4.6 e 7). Aliás, a oração é importante para todos momentos, com rivotril ou sem rivotril, pois através dela aprendemos que existe um Deus que se importa e que está atento ao nosso clamor e que se propõe a nos acompanhar em nossas dores, mesmo quando precisamos dos remédios e assim vamos cultivando em nosso coração a atitude de descansar em situações que transcendem ao nosso controle e também naquelas que não fugiram da nossa governabilidade. 

Se você está sofrendo de uma forma que não está conseguindo sustentar, procure urgentemente por ajuda, e siga também em oração a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor rico em misericórdia, que está sempre pronto a derramar a sua benevolência. Ore e peça que seus amigos orem por você.  É conteúdo para outro texto a situação de pessoas que abusam do rivotril e outras medicações, sem o devido acompanhamento médico. Com carinho, Laurencie.

 

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Orações de lamento, orações humanizadoras, orações de refrigério


"Clama ao Senhor, ó povo de Sião; corram as tuas lágrimas como um ribeiro, de dia e de noite; não te dês repouso, nem descansem os teus olhos. Levanta-te, clama de noite, no princípio das vigias; derrama o coração como águas diante do Senhor! Levanta tuas mãos a ele pela vida de teus filhinhos, que desfalecem [...] nas esquinas das ruas?" (Lamentações 2.18-19)

A oração de lamento é parte demasiadamente importante da espiritualidade cristã no enfrentamento da realidade. Primeiro ela nos mostra com clareza a dureza da existência, sem idealizações, sem romantismos, sem subterfúgios, sem alienações. A Palavra de Deus nos ensina: olhe bem para a vida e não aceite nada que tente falsificar o real.

Em segundo lugar a oração de lamento desconstrói a ideia de que a pessoa de fé está livre das mazelas e vicissitudes, derruba a falso entendimento de que existe um lugar que se está totalmente protegido e livre das dores do mundo. Assim a fé fincada nesse chão duro da realidade, não se torna fuga ou falseamento do sofrimento, mas sim, enfrentamento, aceitação, perseverança e paciência e haja paciência.

Por último tal oração nos ensina que Deus é Deus de todas as horas: dos tempos de alegria e também dos tempos de tristeza. Deus é Deus no dia do nascimento e no dia da morte, no dia do riso e no dia das lágrimas, na hora da festa e na hora do luto. Se não compreendermos isso, se não acolhermos essa verdade dentro do nosso coração a nossa fé poderá se tornar num monte de decepção.

Quando uma pessoa motivada pela angústia e sofrimento - muitos deles incompreensíveis - achega-se Deus com a alma escancarada, com coração quebrantado e contrito, significa que sua dor é real e que seu coração está ferido de fato, todavia é aos pés do Senhor que ela está buscando alívio e consolação. Ao buscar o Deus da verdade tal pessoa se recusa a ser tratada com remédios que não curam, não aceita conselhos apressados e soluções triviais, dessa forma ela é humanizada pois olhou para a dor nos olhos e a acolheu e se permitiu se sensibilizar, e o coração sangrar e as lágrimas caírem, diante de Deus, diante da vida.

Quando oramos orações de lamento quando está doendo, quando estamos com medo e angústia e está apertando o peito nos identificamos com o Cristo que na cruz clamou: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" O desamparo é o sentimento quase que normal na hora do sofrimento mais agudo, mas Deus continua sendo o Meu Deus. Negar o sofrimento, buscar soluções fáceis, fingir que o caos não está presente são posturas que não são emocional, psicológica e espiritualmente saudáveis e atrapalham a caminhada e o crescimento de qualquer um, de qualquer uma.

Deus nunca prometeu dias fáceis pra ninguém, mas Ele prometeu estar presente em todos os momentos. Enxergar Deus no meio do caos é um gigantesco desafio. Tal busca passa pelas orações de lamento ao Deus de misericórdia que se revelou em graça através de Jesus, homem experimentado nos sofrimentos, que nunca rejeitará um coração quebrantado e contrito. Kyrie Eleison! Com carinho, Laurencie.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Evangelho da Crise

Certamente a igreja de Cristo precisa de um despertamento urgente. Como disse Jesus, “os campos estão brancos para a colheita”, ademais o sofrimento no mundo é gigantesco e em muito de nossos templos, supostamente cristãos, estão discutindo, há anos, sobre o sexo dos anjos. O chamado divino para ser sal e luz no mundo tem sido esquecido ou tradado levianamente. O despertamento, tão necessário, só acontecerá quando todos nós nos voltarmos para o Senhor Deus com todo nosso coração, alma, força, vontade e entendimento. Imaginemos que nós fossemos passar por uma prova surpresa exatamente agora. A prova teria 6 questões. E as perguntas seriam: Será que nós, como igreja, temos aprendido:
A pensar de forma precisa?!
A se comportar eticamente?!
A pregar apaixonadamente?!
A cantar alegremente?!
A orar honestamente?!
E a obedecer fielmente?!
Fica aí as perguntas para cada um fazer sua autoavaliação. Impulsionado por esses questionamentos, enfatizo que não é possível pensar num relacionamento profundo com Deus, sem passar pela compreensão e vivencia do Evangelho de Jesus de Nazaré. Infelizmente, muitos crentes pensam que Evangelho é a mensagem que tem que ser pregada somente para os não convertidos, mas isso não é verdade, isso não é verdade mesmo; o Evangelho não é só para iniciantes na fé, como diz Tim Keller, “ele não é o ABC da vida cristã, ele é o de A a Z da vida cristã”. E a igreja não só precisa compreender o Evangelho com profundidade, mas precisa viver de acordo com ele. Ou seja, o Evangelho é um desafio constante para igreja do Senhor, e a Bíblia nos mostra, em muitos exemplos, que muitas igrejas se afastaram do Evangelho de Deus. Por isso precisamos vigiar e orar para não transformarmos a mensagem radical de Jesus numa água com açúcar que não faz diferença na vida de ninguém.
Por isso gostaria de pensar sobre o Evangelho da Crise. E o objetivo deste texto é que compreendamos que Evangelho de Jesus toca, questiona e transforma nossa vida em todas as dimensões, pois não há nenhuma área da vida humana que Cristo não queira exercer seu Senhorio.

Definindo a palavra crise
É comum ouvirmos a palavra crise, principalmente nos dias atuais em nosso país e em muitos países da América Latina. E geralmente a ideia que se tem de crise é pejorativa. Segundo Leonardo Boff no livro – Crise: oportunidade de crescimento – crise, etimologicamente, pode significar “desembaraçar” ou “purificar”. A crise age como um crisol (elemento químico) que purifica o ouro ou a prata das impurezas, acrisola (purifica, limpa) dos elementos que se incrustaram e podem comprometer a substância. Crise, neste sentido, purificar para manter o cerne, a essência. De crise vem ainda a palavra critério que é a medida pela qual se pode julgar e distinguir o autêntico do inautêntico, o bom do mau. A crise é uma descontinuidade e uma perturbação dentro da normalidade da vida provocada pelo esgotamento das possibilidades de crescimento de um arranjo existencial. A crise acontece quando os modelos existenciais pré- estabelecidos já não dão mais conta da realidade. Os paradigmas estão caducos. Daí vem a crise. Que gera uma perturbação no sistema para transformá-lo.
Às vezes, Deus faz isso conosco. O vento dele sopra, faz uma bagunça na nossa vida para colocar as coisas no devido lugar. O sofrimento é algo que Deus pode usar neste sentido.
O sistema capitalista como se apresenta hoje já mostra sinais de desgaste. É por isso que existem tantas crises. Este modelo de consumo ad infinitum não vai resistir por muito tempo. As escolas, com seu modelo de ensino tradicionalista não dão conta das demandas de hoje. Poderíamos ainda citar o modelo político de nosso país e sistema carcerário. As próprias igrejas têm passado por crises porque seus paradigmas já não dão conta da complexidade da pós-modernidade.
Mas o Evangelho de Jesus não envelhece nunca e sempre traz a Boa Notícia de Deus aos homens e mulheres de todos os tempos, de todos os lugares e de todas as culturas.

O Evangelho da Crise
Usamos a expressão o Evangelho da Crise porque o Evangelho de Jesus, sua mensagem transformadora de salvação que afirma que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, provoca crise. O Evangelho de Jesus é um incomodo para todos os sistemas inclusive para os sistemas religiosos. Exemplifiquemos rapidamente, pensando em modelos e estruturas que haviam no tempo de Jesus: Jesus gera crise no modelo fariseu da vida. Eles pregavam, como preparação para a estourar do reino, a estrita observância da lei. Abordavam a realidade com categorias preconcebidas e moralizantes: justo e injusto, piedoso e ímpio, próximo e não próximo. Jesus, provoca este sistema ao afirmar que as pessoas não são aceitas por Deus com base em méritos e prática da lei mosaica e da tradição da religião. Parafraseando Paulo Brabo: “Jesus Cristo era considerado pelos religiosos de sua época um judeu desaforado, por pregar que as pessoas eram aceitar por Deus com base em seu próprio cavalheirismo e graciosidade, mediante ao sacrifício de Jesus”. E não no cumprimento das regras da tradição.
Jesus gera ainda crise na modelo de vida dos essênios. Os essênios eram uma comunidade de monges de grande rigorismo, vivendo nos mosteiros de Qunran, perto do Mar Morto. Conforme os manuscritos descobertos em 1948, eles excluíam do reino todo aleijado das mãos, dos pés, cego, surdo, mudo ou portador de qualquer mácula. Cristo, pelo contrário, convida a participar na ceia do Reino os pobres, aleijados, cegos e coxos. “ O servo voltou e contou tudo a seu senhor. Então, indignado, o dono da casa disse ao servo: Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os mancos.” (Lucas 14.21) Entre os essênios ainda reinava a mais rigorosa ordem hierárquica sob a alta direção sacerdotal. Em vez de hierarquia Cristo ensina a hierodulia (serviço sagrado): Aquele que quiser ser maior seja o servidor, e aquele que quiser ser o primeiro seja escravo de todos. (Mc 10.43 e 44)
Jesus também gera crise na mentalidade de vida dos zelotes. Os zelotes eram um grupo de guerrilheiros piedosos que lutavam por uma teocracia política. Os zelotes queriam provocar a intervenção de Deus através de atos de ódio e terror. Mas Cristo propaga uma mensagem de amor e perdão. E diz que seu Reino não deste mundo e não se baseia nas prerrogativas deste mundo. Até mesmo na cruz Jesus demonstrou sua mansidão. Ao exercitar para consigo mesmo o poder de não usar violência: não pedir fogo do céu, não aceitar a espada como instrumento de vingança. Para o modelo de vida dos zelotes, Jesus era subversivo. Poderia citar outros exemplos, como os saduceus. Mas vamos citar um último e parar por aqui.

Jesus gera crise na vida dos discípulos
Jesus gerou uma crise na vida dos discípulos quando eles ainda nem eram discípulos. É importante retomarmos o conceito de crise que estamos usando aqui, que é algo que desembaraça e purifica, algo que faz as coisas serem de fato o que são, trazer de volta ao cerne, voltar para a essência, provoca e questiona um determinado sistema de vida para propor novos modelos e arranjos existenciais. Toda a vida de Jesus, neste sentido que estamos falando, é uma provocadora de crises. Até mesmo em seu nascimento, que abalou as estruturas do palácio de Herodes, provoca crise ainda na estrutura de vida dos judeus pois o Senhor vem, a priori, para os que eram seus (do seu povo), mas os seus não o recebem (João 1.11). Gera crise quando ele surge pregando o Evangelho do Reino e aceitando com base na fé e por meio da graça, pessoas fora do sistema como os leprosos, crianças e mulheres. Ele abalou as estruturas do pensamento e de vida da sociedade de seu tempo. E é essa crise que ele provoca naqueles homens daquele tempo, quando depois da prisão de João Batista, ele começa a pregar: “O Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho”. É por isso que Simão, André, Tiago e João imediatamente a se encontrarem com Jesus abandonam seu modelo antigo de viver. Ao dizer que o Reino está próximo, não está querendo dizer que vai chegar daqui a pouco, como quem fala de uma proximidade em termos de tempo. Ele está dizendo que o Reino está acessível, Jesus está prometendo acesso a uma realidade vivencial. E Reino é o ambiente em que a vontade de seu soberano é exercida sem restrições e resistências. Ou seja, Jesus está dizendo que o ser humano pode participar do ambiente em que as coisas funcionam do jeito de Deus, onde a realidade humana está em harmonia com a realidade divina. E para ter acesso a este Reino ele fala de arrependimento, metanoia, mudança da mente, expansão da consciência, capacidade de enxergar as coisas de um outro prisma o mesmo enxergar a vida de perspectiva mais completa. É a experiência que permite as pessoas dizerem eu mudei e a minha vida nunca mais será a mesma. Não consigo ver as coisas do mesmo jeito de sempre. Mudança de atitude. Mudança de comportamento. Mundança de rota (Ver o livro Vivendo com Propósitos de Ed René Kivitz).
Quem se arrepende abandona uma direção de vida e toma outra. É preciso aceitar que nosso modelo antigo de viver confrontava Deus e precisamos nos render a Ele dia a dia. O Evangelho da crise questiona nosso sistema de vida para nos colocar no lugar certo.

Conclusão

É tempo de servirmos ao Senhor de verdade, com alma e integridade, sem querermos perverter sua mensagem só para ficarmos numa zona de conforto com a consciência alienadamente tranquila. Se o Evangelho não tem gerado crises em nossos sistemas e paradigmas de vida é porque certamente o evangelho que afirmamos crer está desalinhado e desajustado com aquela mensagem que saiu da boca de Jesus. Um evangelho falsificado não terá condições e forças para transformar o coração humano, muito menos para fazer diferença na sociedade. Deus tenha misericórdia de nós!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Mapa da violência de 2015

Neste documento está apresentado as estatísticas da violência no Brasil nos últimos anos, especialmente no que se refere a mortes por armas de fogo. As estatísticas são impessoais e não tem condições de expressar a dor e o sofrimento de cada família, porém nos ajudam a enxergar esses males que tem acontecido e onde exatamente tem acontecido.
Este é um documento triste de ler, mas que precisa ser lido. Que abramos nossos olhos para tanta dor que há em nossa volta e oremos: Venha o Teu Reino, Senhor Jesus! Amém. E nos engajemos para levar esperança a todas as pessoas que encontrarmos em nossa Jornada.


http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/mapaViolencia2015.pdf