terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Tristezas de fim de ano – o que a sabedoria bíblica e a psicanálise têm a dizer sobre isso?

Embora para muitas pessoas o final do ano seja tempo de festas, viagens, e estar com a família e amigos, para muitos outros é tempo em que bate aquela tristeza, sentimentos de fracasso e solidão. Como explicar isso?

Podemos dizer que existem sofrimentos que as pessoas carregam em que elas não conseguem nomear, faltam palavras adequadas para narrar esses sentimentos. Talvez uma expressão que possa explicar essa sensação é mal-estar que é uma condição estrutural da vida em sociedade.

O psicanalista Dunker critica fortemente a lógica comparativa da contemporaneidade: por meios das redes sociais pensamos poder verificar quem avançou, quem prosperou, quem constituiu família, enfim, quem venceu. Daí o sujeito, diante deste universo de informações do sucesso dos outros, pode se compreender como fora da média, atrasado, em dívida com o tempo. Além disso, há um certo imperativo de se festejar nestas épocas, como se fosse possível obrigar as pessoas a estarem felizes, estarem acompanhadas, estarem agradecidas e estarem bem. Quem não se encaixa nesta lógica se sente inadequado, culpado e até como se fosse um estranho no ninho.

Usando a linguagem de Lacan podemos dizer que o sujeito se constitui no olhar do Outro e este Outro contemporâneo cria a sua métrica através das redes sociais, construindo até ranking de felicidade, todavia como a experiência comprova, tal medição não alcança a todos.

Freud dizia que aquilo que não é simbolizado retorna como sintoma, assim para enfrentar essa tristeza é preciso poder dizer sem culpa: “estou triste e isso tem história”. É preciso admitir que tristeza não é falha moral, nem sinônimo de fracasso e daí é possível abandonar a culpa.

Bebendo um pouco dos livros de sabedoria da Bíblia: o autor bíblico afirma que a tristeza é melhor que o riso pois aperfeiçoa o coração e ainda diz que é mais proveitoso estar numa casa que há luto do que na que tem festa, pois é preciso refletir na finitude da vida e ninguém faz isso numa festa e citando literalmente o texto bíblico se afirma: “Não viva saudoso dos bons e velhos tempos, isso não é sábio”. Ou seja, a Bíblia revela que sentir tristeza não é o fim do mundo, não é a decretação de uma vida fadada ao fracasso, mas é parte importante da nossa construção. Se a tristeza está presente, então é preciso parar para ouvi-la, certamente há histórias a serem contadas. Ademais, não é saudável querer habitar no passado, como se lá tivéssemos vivido o céu na terra. Isso também é ilusão, afinal, a vida é sempre mistura de coisas boas e ruins em todo o tempo. Usando as palavras do Mestre Jesus é preciso viver hoje porque o amanhã trará a suas próprias preocupações.

Não creio naquelas frases mágicas tipo: “é preciso suportar o processo para vivenciar o propósito”, frase de muito mal gosto por sinal, como se tudo que acontecesse na vida tivesse algum sentido maior ou uma lição a dar. Isso é falso. As crianças de Gaza que perderam membros do seu corpo ou seus entes queridos por conta de governantes sanguinários só demonstram o absurdo da história humana, e não há nenhum propósito em tal sofrimento, exceto o de revelar nosso fracasso em sermos humanos. Assim sendo, é bom deixar de lado qualquer tipo de discurso triunfalista da existência, isso além de não estar respaldado na realidade, não ajuda ninguém.

Reconhecer e nomear as tristezas é um bom passo para a autoaceitação, afinal cada um tem a sua história, e neste reconhecimento sincero e humilde, talvez possa surgir em nossa mente aquela velha canção que dizia: “cada ser em si carrega o dom capaz de ser feliz”, sem obrigatoriedades, sem comparações, sem imperativos de felicidade, sem ranking de sucesso, só a alegria de viver a minha própria história, junto dos meus, com minhas vitórias e fracassos. Sendo assim, desejo que seu 2026 possa ser vivido em plenitude. Uma oração para nos orientar diante do futuro que se apresenta: Senhor, ensina-nos a contar os nossos dias de modo que alcancemos a sabedoria (Salmo 90.12). Encontrar a sabedoria é (re)descobrir o sabor de viver. Deus nos ajude! Amém! Em caso de uma tristeza insistente: procure ajuda!

domingo, 30 de novembro de 2025

Verdades da Bíblia e Ensinamentos de Freud: distanciamentos e aproximações - O tal do recalque


 

Recalque é um conceito importante dentro da psicanálise freudiana e é algo que está instalado lá no inconsciente da pessoa mas a afeta profundamente. Podemos definir recalque como: um mecanismo de defesa pelo qual o ego mantém fora da consciência conteúdos que provocariam angústia, mas que continuam ativos no inconsciente e influenciando o comportamento. Na teoria de Freud o que poderia tirar o equilíbrio do ego, ou a imagem que a pessoa tem de si mesma, é retirado da consciência. Esse desequilíbrio pode ser causado por um desejo proibido, uma fantasia, uma lembrança e até uma emoção intolerável, por isso acaba sendo recalcado, como se fosse lacrado em algum lugar do inconsciente na tentativa de deixar essa “coisa” bem guardada e esquecida. Ele não desaparece, apenas sai da consciência. Mas a questão que para Freud tudo que é recalcado retorna em forma de sintomas, sonhos, ideias obsessivas, atos falhos e comportamentos repetitivos que pode se dizer que geram algum tipo de sofrimento psíquico.


Os psicólogos cristãos concordam e aceitam o conceito de inconsciente, todavia seguindo a lógica de teologia cristã até mesmo o inconsciente é tocado pelo pecado humano que afeta o seu ser em sua completude. Pensando desse ponto de vista podemos dizer que há elementos presentes na profundidade do ser humano, no seu inconsciente, que afeta sua vida, macula sua relação com Deus, afeta sua autocompreensão e até mesmo prejudica a relação com as pessoas. O autor da carta ao Hebreus escreveu assim: Cuidem uns dos outros para que nenhum de vocês deixe de experimentar a graça de Deus. Fiquem atentos para que não brote nenhuma raiz venenosa de amargura que cause perturbação, contaminando muitos.  Pode-se dizer segundo este texto algo pode estar oculto no ser humano e pode crescer silenciosamente trazendo diversos prejuízos, o que é chamado de raiz venenosa de amargura, quando isso emerge pode trazer grandes prejuízos a pessoa. No pensamento bíblico essa raiz pode atingir até mesmo outras pessoas.


A cura para a raiz de amargura é o cuidado mútuo e abertura para a graça de Deus que pode lançar luz ao que está oculto, gerando arrependimento e mudança de atitude e postura diante da vida. Raiz venenosa de amargura pode ser algo ligado a moral, pode ser sentimentos maldosos em relação aos outros (rancor, ódio, inveja) enfim é um problema de ordem espiritual. Tal pessoa precisa de acompanhamento espiritual.


Esta raiz de alguma forma se aproxima do recalque freudiano, por estar oculto, por afetar a vida da pessoa, por trazer desequilíbrio, mas as semelhanças param por aí. Freud não trabalha com o conceito de pecado, então diferente da Bíblia não dá para moralizar a questão, pois o que foi recalcado não é necessariamente algo feio ou imoral, mas é algo incompatível com o ego, especialmente com exigências culturais, sociais ou internas da própria pessoa. O tratamento para isso é através da terapia, buscando descobrir o que está recalcado para lançar luz e trazer explicações para certos comportamentos e até sentimentos que a pessoa carrega.


Tanto o recalque como a raiz de amargura pode gerar ansiedade, angústia, pode provocar medo e vergonha. Ou seja, se você está sofrendo por algo que não entende se é uma pessoa que enxerga o mundo pelo prisma da fé cristã, então deve buscar ajuda espiritual, pedir conselhos a alguém maduro e pedir que alguém o acompanhe em oração. E também pode contar com o acompanhamento de um terapeuta que buscará encontrar caminhos dentro da psicanálise ou psicologia para ajudar a pessoa. O que não podemos é aceitar o sofrimento como normal, ou como meramente consequência de algum erro do passado, ou fraqueza na fé, ou algum tipo de sina. É preciso buscar apoio para encontrar nosso equilíbrio e podermos viver bem, de forma leve.

domingo, 19 de outubro de 2025

A oração e o rivotril

             

Por muito tempo foi proclamado em algumas igrejas que os problemas ligados a saúde mental eram falta de fé, falta de oração, ou mesmo consequência de algum pecado. Se dizia em muitos púlpitos que o cristão verdadeiro não sofria de depressão. Além de um ataque constante aos profissionais da saúde mental. Conheço histórias de psicólogos que não suportaram tamanha perseguição covarde dos púlpitos e foram congregar em outra igreja. Imagine o tipo de ataque que sofreram as pessoas que eram medicadas com ansiolíticos e calmantes como o rivotril naquelas épocas, sofriam dobrado, por estarem mentalmente enfermas e por serem perseguidas por seus líderes espirituais de quem deveriam receber apoio e cuidado.

Hoje – graças a Deus – essas falas equivocadas, fruto do puro suco da ignorância, tem diminuído cada vez mais e se espera que elas cessem por completo. Uma explicação plausível para essa postura inadequada vem de uma compreensão ruim das palavras Jesus e outros textos das Escrituras:

“Por isso vos digo: Não fiqueis ansiosos quanto à vossa vida, com o que comereis, ou com o que bebereis; nem, quanto ao vosso corpo, com o que vestireis. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que o vestuário [...]. Por isso vos digo: Não fiqueis ansiosos quanto à vossa vida, com o que comereis, ou com o que bebereis; nem, quanto ao vosso corpo, com o que vestireis. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que o vestuário?” (Mateus 6.25)

O entendimento que provavelmente se extraia deste texto é que sofrer de ansiedade era pecado e por isso devia ser rejeitado. Mas basicamente Jesus está criticando um certo afã das pessoas de compreenderem  que a vida está totalmente em suas próprias mãos. A ansiedade que Jesus critica é consequência de uma visão equivocada da vida, onde se carrega o peso gigantesco nas costas de que as minhas conquistas são fruto exclusivo de mérito, do meu esforço, do meu trabalho, esquecendo-se que a vida é dádiva de Deus e que até nossas conquistas acontecem debaixo da permissão divina. O ensinamento de Jesus é que essa busca frenética por manter a vida – sem depender de Deus – gera ansiedade, e por sua vez, falta de paz e traz prejuízos na jornada da vida.

                Portanto, quando uma pessoa sofre de ansiedade ou pânico ou depressão, ela pode e deve acessar os serviços médicos da psiquiatria, das terapias dos psicólogos, dos psicanalistas etc, e se o remédio receitado, devidamente, for o rivotril ou outro, tal pessoa tem total liberdade para usufruir deste tratamento, afinal o cristão deve compreender que as conquistas da medicina são também fruto da graça de Deus. Isso é valido para as ansiedade que são fruto de patologia.

Agora para tratar da ansiedade que Jesus critica, o cristão pode buscar crescer na oração, conforme ensina o apóstolo Paulo: “Não andeis ansiosos por coisa alguma; pelo contrário, sejam os vossos pedidos plenamente conhecidos diante de Deus por meio de oração e súplica com ações de graças; ' e a paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, guardará o vosso coração e os vossos pensamentos em Cristo Jesus” (Filipenses 4.6 e 7). Aliás, a oração é importante para todos momentos, com rivotril ou sem rivotril, pois através dela aprendemos que existe um Deus que se importa e que está atento ao nosso clamor e que se propõe a nos acompanhar em nossas dores, mesmo quando precisamos dos remédios e assim vamos cultivando em nosso coração a atitude de descansar em situações que transcendem ao nosso controle e também naquelas que não fugiram da nossa governabilidade. 

Se você está sofrendo de uma forma que não está conseguindo sustentar, procure urgentemente por ajuda, e siga também em oração a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor rico em misericórdia, que está sempre pronto a derramar a sua benevolência. Ore e peça que seus amigos orem por você.  É conteúdo para outro texto a situação de pessoas que abusam do rivotril e outras medicações, sem o devido acompanhamento médico. Com carinho, Laurencie.

 

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Orações de lamento, orações humanizadoras, orações de refrigério


"Clama ao Senhor, ó povo de Sião; corram as tuas lágrimas como um ribeiro, de dia e de noite; não te dês repouso, nem descansem os teus olhos. Levanta-te, clama de noite, no princípio das vigias; derrama o coração como águas diante do Senhor! Levanta tuas mãos a ele pela vida de teus filhinhos, que desfalecem [...] nas esquinas das ruas?" (Lamentações 2.18-19)

A oração de lamento é parte demasiadamente importante da espiritualidade cristã no enfrentamento da realidade. Primeiro ela nos mostra com clareza a dureza da existência, sem idealizações, sem romantismos, sem subterfúgios, sem alienações. A Palavra de Deus nos ensina: olhe bem para a vida e não aceite nada que tente falsificar o real.

Em segundo lugar a oração de lamento desconstrói a ideia de que a pessoa de fé está livre das mazelas e vicissitudes, derruba a falso entendimento de que existe um lugar que se está totalmente protegido e livre das dores do mundo. Assim a fé fincada nesse chão duro da realidade, não se torna fuga ou falseamento do sofrimento, mas sim, enfrentamento, aceitação, perseverança e paciência e haja paciência.

Por último tal oração nos ensina que Deus é Deus de todas as horas: dos tempos de alegria e também dos tempos de tristeza. Deus é Deus no dia do nascimento e no dia da morte, no dia do riso e no dia das lágrimas, na hora da festa e na hora do luto. Se não compreendermos isso, se não acolhermos essa verdade dentro do nosso coração a nossa fé poderá se tornar num monte de decepção.

Quando uma pessoa motivada pela angústia e sofrimento - muitos deles incompreensíveis - achega-se Deus com a alma escancarada, com coração quebrantado e contrito, significa que sua dor é real e que seu coração está ferido de fato, todavia é aos pés do Senhor que ela está buscando alívio e consolação. Ao buscar o Deus da verdade tal pessoa se recusa a ser tratada com remédios que não curam, não aceita conselhos apressados e soluções triviais, dessa forma ela é humanizada pois olhou para a dor nos olhos e a acolheu e se permitiu se sensibilizar, e o coração sangrar e as lágrimas caírem, diante de Deus, diante da vida.

Quando oramos orações de lamento quando está doendo, quando estamos com medo e angústia e está apertando o peito nos identificamos com o Cristo que na cruz clamou: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" O desamparo é o sentimento quase que normal na hora do sofrimento mais agudo, mas Deus continua sendo o Meu Deus. Negar o sofrimento, buscar soluções fáceis, fingir que o caos não está presente são posturas que não são emocional, psicológica e espiritualmente saudáveis e atrapalham a caminhada e o crescimento de qualquer um, de qualquer uma.

Deus nunca prometeu dias fáceis pra ninguém, mas Ele prometeu estar presente em todos os momentos. Enxergar Deus no meio do caos é um gigantesco desafio. Tal busca passa pelas orações de lamento ao Deus de misericórdia que se revelou em graça através de Jesus, homem experimentado nos sofrimentos, que nunca rejeitará um coração quebrantado e contrito. Kyrie Eleison! Com carinho, Laurencie.